Será difícil negar - como a beleza da Mangueira vista das alturas - o medo que me assola quando se trata de viajar de avião.
Levei anos, por força de trabalho, fazendo a Ponte Aérea Rio-São Paulo, religiosamente, duas vezes por semana. Era a época daquele aviãozinho japonês, desconfortável, conhecido como Samurai [YS-11, ao que parece, era o nome técnico que os especialistas no ramo lhe davam]; vi-os desaparecer todos, objetos que foram de diferentes acidentes aéreos, levando sua já reduzida frota - desde que dela passei a utilizar-me - ao fim. Vi desaparecerem uns poucos amigos que, como eu, neles chegavam a viajar, muitas vezes, até tres vezes por semana.
Não é motivo de meu agrado relembrar os que se foram, vítimas de desastres aéreos, nem das viagens debaixo de tempo seguramente desaconselhável para vôos. Afirmo, sem preconceito, porém, que viajar em avião com padres, freiras, rabinos, seminaristas ou noviças a bordo [não tenho registro de pastores protestantes], contrariamente ao que se pode pensar, sempre significa preocupação adicional para a tripulação; por melhor que esteja o tempo na decolagem não se chegará ao final da viagem sem passar por momentos desagradáveis decorrentes de fenômenos meteorológicos de conseqüências imprevisíveis.
Não sei, também, qual o bom motivo que sempre levava este covarde blogueiro a ser encaminhado para os vôos dos Samurais na Ponte-Aérea. É mais ou menos como dizia, lá para os idos dos anos 50, aquele anúncio de produto ["Nove entre dez estrelas usam o sabonete Tal"], acho que até hoje existente no mercado: nove entre dez viagens para São Paulo [ou de lá para cá] fazia-as no bendito do YS-11 . Confesso ter-me sentido aliviado somente quando deixei de neles viajar por não existir mais o tal equipamento [que é como os profissionais da área costumam chamar os aviões].
Passei, tempos depois, a trabalhar em Brasília; foi quando iniciei minhas viagens pela hoje inexistente Transbrasil. Não havia naquela empresa aérea "hostess de bordo" - eram assim conhecidas suas areomoças - que não conhecesse aquele senhor covarde com calva pronunciada que, antes mesmo de o avião decolar já tomava sua dose tripla de uísque, servido às escondidas [era, ao que me parece, proibido fornecer bebidas aos senhores passageiros antes de a aeronave iniciar o vôo], de forma a evitar a necessidade de serviços adicionais de atendimento físico e psicológico ao passageiro apavorado: eu.
Terminados meus anos de trabalho na capital decidi vingar-me dos momentos de tensão que passei em todas as viagens que fui obrigado a fazer para o Rio e, em vez de avião, comprei passagem em ônibus leito.
E foi nele, pasmo, que encontrei velho amigo de colégio - à época no exercício de cargo importante no Ministério da Educação - com quem cruzava, quase que diariamente, nos gabinetes brasilienses. Era o último lugar, um ônibus, em que poderia imaginar encontrá-lo.
Não levou mais que o tempo de, surpreendidos, nos darmos boa-tarde; debaixo de toda sua autoridade, perguntou-me: "Você também tem medo de avião?"
Tinha-o ele, como depois confessou, tanto ou mais que eu, e estava em vias de acabar com seu casamento pelo simples motivo de deixar de dar assistência aos cinco filhos e à mulher que moravam no Rio e não tinham condições de visitar Brasília todas as semanas. E lá ia ele, ida e volta, toda vez que podia, fugindo dos aviões, humildemente, em seu ônibus leito Brasília-Rio / Rio de Janeiro-Brasília, para tentar salvar o casamento...
Levei anos, por força de trabalho, fazendo a Ponte Aérea Rio-São Paulo, religiosamente, duas vezes por semana. Era a época daquele aviãozinho japonês, desconfortável, conhecido como Samurai [YS-11, ao que parece, era o nome técnico que os especialistas no ramo lhe davam]; vi-os desaparecer todos, objetos que foram de diferentes acidentes aéreos, levando sua já reduzida frota - desde que dela passei a utilizar-me - ao fim. Vi desaparecerem uns poucos amigos que, como eu, neles chegavam a viajar, muitas vezes, até tres vezes por semana.
Não é motivo de meu agrado relembrar os que se foram, vítimas de desastres aéreos, nem das viagens debaixo de tempo seguramente desaconselhável para vôos. Afirmo, sem preconceito, porém, que viajar em avião com padres, freiras, rabinos, seminaristas ou noviças a bordo [não tenho registro de pastores protestantes], contrariamente ao que se pode pensar, sempre significa preocupação adicional para a tripulação; por melhor que esteja o tempo na decolagem não se chegará ao final da viagem sem passar por momentos desagradáveis decorrentes de fenômenos meteorológicos de conseqüências imprevisíveis.
Não sei, também, qual o bom motivo que sempre levava este covarde blogueiro a ser encaminhado para os vôos dos Samurais na Ponte-Aérea. É mais ou menos como dizia, lá para os idos dos anos 50, aquele anúncio de produto ["Nove entre dez estrelas usam o sabonete Tal"], acho que até hoje existente no mercado: nove entre dez viagens para São Paulo [ou de lá para cá] fazia-as no bendito do YS-11 . Confesso ter-me sentido aliviado somente quando deixei de neles viajar por não existir mais o tal equipamento [que é como os profissionais da área costumam chamar os aviões].
Passei, tempos depois, a trabalhar em Brasília; foi quando iniciei minhas viagens pela hoje inexistente Transbrasil. Não havia naquela empresa aérea "hostess de bordo" - eram assim conhecidas suas areomoças - que não conhecesse aquele senhor covarde com calva pronunciada que, antes mesmo de o avião decolar já tomava sua dose tripla de uísque, servido às escondidas [era, ao que me parece, proibido fornecer bebidas aos senhores passageiros antes de a aeronave iniciar o vôo], de forma a evitar a necessidade de serviços adicionais de atendimento físico e psicológico ao passageiro apavorado: eu.
Terminados meus anos de trabalho na capital decidi vingar-me dos momentos de tensão que passei em todas as viagens que fui obrigado a fazer para o Rio e, em vez de avião, comprei passagem em ônibus leito.
E foi nele, pasmo, que encontrei velho amigo de colégio - à época no exercício de cargo importante no Ministério da Educação - com quem cruzava, quase que diariamente, nos gabinetes brasilienses. Era o último lugar, um ônibus, em que poderia imaginar encontrá-lo.
Não levou mais que o tempo de, surpreendidos, nos darmos boa-tarde; debaixo de toda sua autoridade, perguntou-me: "Você também tem medo de avião?"
Tinha-o ele, como depois confessou, tanto ou mais que eu, e estava em vias de acabar com seu casamento pelo simples motivo de deixar de dar assistência aos cinco filhos e à mulher que moravam no Rio e não tinham condições de visitar Brasília todas as semanas. E lá ia ele, ida e volta, toda vez que podia, fugindo dos aviões, humildemente, em seu ônibus leito Brasília-Rio / Rio de Janeiro-Brasília, para tentar salvar o casamento...
Continua meu amigo em Brasília e está no quarto matrimônio [com uma senhora que lá conheceu].
Deu nos jornais nos últimos dias: "Controladores de vôo em greve"; "Governo Lula só usou 37% da verba para controle de vôos"; "Transponder não estava ligado"; "Controladores de vôo passaram dos limites"; "Só agora foram liberados 40% dos recursos destinados ao controle aéreo"; "Novo apagão aéreo"; "Aeroportos congestionados"; "Buracos negros atrapalham navegação área no Amazonas, Tocantins e Mato Grosso".
Deu nos jornais nos últimos dias: "Controladores de vôo em greve"; "Governo Lula só usou 37% da verba para controle de vôos"; "Transponder não estava ligado"; "Controladores de vôo passaram dos limites"; "Só agora foram liberados 40% dos recursos destinados ao controle aéreo"; "Novo apagão aéreo"; "Aeroportos congestionados"; "Buracos negros atrapalham navegação área no Amazonas, Tocantins e Mato Grosso".
Quem não tinha medo de avião, como eu, passou a ter.
E com boas razões: faltam responsabilidade e vergonha a muitas autoridades que deveriam tê-las. E que continuam, infelizmente, no exercício de seus cargos.
Até quando, cara pálida?

