sexta-feira, fevereiro 17, 2006

QUEM SABE SE, REZANDO, MELHORA?

Na pesquisa [divulgada ontem, quinta-feira, 16, pela CUT-Central Única dos Trabalhadores], sobre o posicionamento dos trabalhadores quanto à atual legislação sobre horas extras de trabalho a maioria dos que foram consultados [26,8%] demonstraram preferir a manutenção da legislação vigente; 19,9%, que elas poderiam livres e sem qualquer controle; 13,7%, que sejam proibidas; e 2,6% que sejam limitadas. Deram outras sugestões ou não souberam responder os demais inquiridos [17,1%].
Elaborada pelo DIEESE-Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos [que usou como metodologia a aplicação de questionários entregues diretamente aos trabalhadores em todas as regiões do país, nos ramos químico, de transporte, de vestuário, metalúrgico e de comércio e serviços] a pesquisa [são preliminares, ainda, os dados disponíveis e sua conclusão é esperada para junho do corrente ano] revela que 77,8% dos trabalhadores brasileiros fazem hora extra enquanto apenas 21% dos consultados declararam não trabalhar acima da carga horária contratada,
João Felício, presidente da CUT, de posse dos dados [até agora disponíveis], afirmou: "É um absurdo no Brasil uma quantidade tão excessiva de horas extras. Há um estímulo exagerado para que o cidadão pratique horas extras. Nós até compreendemos que é porque o salário é extremamente baixo. Mas, ao fazerem isto, conseqüentemente, se retira o posto de trabalho de uma outra pessoa".
Podendo ser aumentada em até duas horas extras [desde que acordado - por escrito - entre empregado e empregador ou contrato coletivo de trabalho] a jornada diária de trabalho [proibida de, por dia, ultrapassar dez horas], somente será cumprida pelo empregado se for seu desejo; as horas trabalhadas a mais deverão ser remuneradas em, no mínimo, 50% a mais sobre a remuneração normal e a compensação de horas [com instrumentos como "banco de horas"] só é admissível por meio do estabelecimento de acordo coletivo.
Perguntados sobre as razões que os induziam a fazer horas extras de trabalho 45,3% dos pesquisados disseram que tinham como principal objetivo contar com uma complementação essencial de sua renda mensal; 23,4% que o faziam para demonstrar um comprometimento com a empresa; 14,6% que tinham por fim complementar a renda para compra de determinados bens; e 9,8%, complementar a renda para atividades de lazer e cultura. Ficar bem com os companheiros de trabalho e outras razões foram os demais motivos [4,8%] apresentados.
Duro de ver como se defronta o trabalhador brasileiro com a vida: hora extraordinária de trabalho para comprar uma TV, para pagar o empréstimo feito junto ao cunhado, para dar a bicicleta para a filha que terminou o [hoje chamado] primeiro grau, para comprar o livro do filho que passou para a quinta série, para fazer a dentadura da mãe pensionista do INSS. Hora extra para fazer tudo que as excelências que por aí andam nem desconfiam.

Há quem diga que somos um país de analfabetos. Esperem mais um pouco que isso vai ser resolvido: quem sabe as autoridades não encontrem [em vez de duas, tres horas - diárias - a mais de trabalho ] solução "inteligente" para o problema? Quem sabe não aumentem as vendas dos livros de Machado e de Drummond [por exemplo]?
Oremos.