quarta-feira, março 22, 2006

BODE EXPIATÓRIO

Terminou o jogo e eu fiquei lá com todo o Brasil. Faltava pouco para as cinco da tarde daquele 16 de julho. Ninguém saiu; ficamos todos ouvindo aquele silêncio aterrador como nunca mais ouvi na vida.
Vimos, em prantos, os uruguaios [Odulio Varella à frente, capitão do time, aquele touro] recebendo a Jules Rimet. Não lembro de alguém ter aplaudido. Não lembro do que via no campo. Não via o time do Brasil, os cartolas de sempre, juiz, bandeirinhas, não via nada. Parado, as lágrimas correndo no rosto de garoto naquela imensidão de duzentas mil pessoas no Maracanã. Não lembro de ter visto [na saída do estádio] uma queixa, um empurrão, um desentendimento, uma briga, um palavrão siquer.

Deixamos o Maracanã, eu, meu tio - que me levou ao jogo - e o resto do Brasil, acompanhados por um pranto silencioso.
Dia 17 pela manhã os jornais já apontavam o primeiro culpado pela derrota: o prefeito, Gal.Mendes de Morais. Dizia A Tribuna da Imprensa: “O general excedeu-se a si mesmo. Falou aos jogadores dando toques marciais ao flautim que tem na garganta, para lembrar-lhes a imensa responsabilidade para com a pátria. Aos que se lembram, o espetáculo igualou-se ao de Hitler falando ao pugilista Max Schmeling antes da luta com Joe Louis [que, mais, tarde, se transformou no campeão mundial de box]: era o destino da raça, era o rumo da nacionalidade que estavam em jogo”.
Aos poucos começaram a aparecer os culpados, no campo, pela derrota: Bigode, Barbosa e Juvenal, nesta ordem. Flávio Costa, o técnico, atribuia a Juvenal, do alto de sua (in)competência, a responsabilidade pelo dois gols sofridos por Moacyr Barbosa - reconhecidamente um dos maiores goleiros que já passaram por nossas seleções:foi a falta de cobertura que deveria ter dado a Bigode.
Imputada inicialmente ao craque do Fluminense [Bigode], a culpa pela derrota foi, no correr dos tempos, sendo transferida para o goleiro Barbosa. "Está vendo aquele negão ali? Foi ele o responsável pela derrota do Brasil em 1950; é o Barbosa". Viu ele e ouviu, repetidas vezes, em silêncio, pelo resto da vida, algum pai dizer ao filho em visita ao Maracanã, seu local de trabalho até a morte.
Transformou-se o negro Moacyr - e foi um peso tão cruel que passou a ser o retrato de um homem carregando aquela tristeza sem fim até os últimos dias de sua vida - no bode expiatório para a derrota do Brasil.
Morreu com essa dor.

É este ritual de "bode expiatório", vivido por Barbosa, que, espero, não atinja o funcionário - já identificado, ao que parece - da Caixa Econômica que forneceu a senha para o levantamento do sigilo bancário, sem autorização, do caseiro [insisto: ainda?] Francenildo, que, como sabe muito bem a informada leitora, deu conhecimento ao país de mais uma mentira do ministro Palocci. Não acredito ter sido de iniciativa do funcionário a liberação da senha para que parlamentares do PT saíssem fuçando as contas do filho de d.Benta. Alguém, no mínimo, lhe pediu tal gentileza. Há indícios de que teria sido assessor de alto nível do ministro. É bom, com a maior rapidez, que se identifique quem foi .
Não será bom para o Brasil que o funcionário da CEF vista a carapuça do negro Barbosa.