quinta-feira, março 23, 2006

EDSON ARANTES: "BRASILEIRO NÃO SABE VOTAR". NÃO SABE MESMO.

Muito há que se dizer do jogador Pelé, que imortalizou a camisa 10 da seleção e tantas glórias trouxe ao Brasil. Vale o mesmo para o cidadão Edson Arantes do Nascimento, vítima, faz tempo - acho que desde o milésimo gol de Pelé - da má vontade de parcela irrelevante da imprensa e da meia dúzia dos que zombam de sua irretocável biografia, como jogador e cidadão.
Lembrei do craque por duas frases suas que originaram, sem dúvida, as reações contra ele: "Dedico este gol às crianças do Brasil" e "Brasileiro não sabe votar". Começou, desde a primeira, a desdobrar-se o enredo de um samba de crioulo doido que nunca mais teve fim. Edson Arantes era ainda jogador e fazia seu gol de número mil, cobrando penalidade contra o Vasco da Gama [era o argentino Andrada o goleiro, se não me falta a memória quanto ao país de origem], o que o quarentão Romário vem perseguindo faz tempo e não acredito venha a alcançar.
Menino de infância humilde, já consagrado à época do gol e, sobretudo, rico [coisa que faz mal a muita gente], o craque Pelé deve ter visto, numa fração de segundo, o garoto magrinho que foi e a família com dificuldades em que viveu; e disse aquela frase simples que marcou a todos tão profundamente, menos àqueles que por ela o ironizam até hoje.
Perguntado sobre a política e políticos do Brasil deu opinião sincera a respeito: foi a gota d'água para a gozação maldosa, feita por alguns, separando o jogador de futebol do cidadão."O Pelé é muito bom com a bola nos pés; já o cidadão Edson não pode falar, só diz bobagem", deixam transparecer [na televisão, nos jornais ou no rádio] a má vontade enrustida que contrapõe o brasileiro classe média ao brasileiro que deu certo na vida. E não há hoje em dia quem, pretendendo mostrar-se "erudito" em coisas do futebol - até mesmo aqueles que optaram pela profissão que ele tanto honrou - repita a frase injusta, com variantes, sobre este negro bem sucedido e merecedor do respeito do Brasil inteiro.

Essas lembranças todas por quê? Porque hoje, mais que nunca, se confirma a incompetência do brasileiro na hora de votar. Veja a amável leitora, entre os que estão à sua volta, neste instante, quantos sabem - nomes e partidos, se ainda nos que os elegeram e neles se mantendo até agora - quais os políticos [deputados e senadores] nos quais votaram para nos representar. Numa hipótese otimista, dependendo do grupo social em que a amiga se encontre no momento, talvez um em um círculo de cada dez. Hipóteses diferentes serão, meramente, desvios estatísticos.
Pior ainda se você identificar, preocupado leitor, o deputado que elegeu como um daqueles que entende não ser crime a manipulação de contas por meio do chamado caixa dois, como afirmou peremptoriamente o senhor ministro da Justiça. Ou será menos mau que o deputado que hoje, por exemplo, mantém seu companheiro de partido [que ele sabe ser corrupto] na Casa, escondendo-se atrás do voto secreto, acredite que sua atitude reflita, apenas, o tão mal interpretado "espírito de corpo" [deles].? Ou, ou, ou... e são tantos os 'ou' que afligem nososs parlamentares que podemos imaginar ser-lhes impossível dormir com a tranqüilidade dos justos. São os zumbis da política a serviço de seus pares, envolvidos, só por hipótese, nos valeriodutos da vida, tão desgastantes para uns pouco sinceros e honestos que circulam envergonhados pelos corredores do Congresso.

Nenhum dos candidatos em que votei foi eleito; sorte minha. Vamos experimentar de novo no dia 1º de outubro próximo.

Pelé tinha razão, fale quem quiser falar.