terça-feira, março 28, 2006

O SANITARISTA MENTIROSO

Amigo meu, indignado com o correr da carruagem nesta terra abençoada por Deus, ligou para dizer que nas próximas eleições não somente deixará de votar como, de lambuja, não comparecerá à Zona Eleitoral para assinar a pauta de presença. Não se dará, também, confirma ele, ao trabalho de se justificar: sexagenário já, beirando os setenta, doze remédios diferentes por dia para mantê-lo em condições de, ao menos, ir ao banco pagar suas contas, percebendo "benefício" do INSS que mal dá para pagá-las, Paulo [chamemo-lo assim] desistiu.
Eleitor ferrenho do PT nas últimas eleições, acreditou nas promessas dos éticos que garantiam, depois de quatro anos de governo, entregar um Brasil melhor que o que recebera de seus pais e no qual [sobre]vivera até 2002. Vãs esperanças, descobriu ele tão logo os petistas assumiram o poder. Sonhos irrealizados, promessas não cumpridas, ética às favas. "Mateus, primeiro os meus" e "farinha pouca meu pirão primeiro" foi o que viu; desencantou-se.
Só não esperava corrupção, "coisa daqueles milicos que tomaram conta do país em 64". Mas não precisou esperar muito e eis que ela, aos poucos, se descortina. Reagem os éticos quais meretrizes ofendidas. Ele ainda acredita: incompetentes, pouco éticos, maus administradores, pouco sinceros, tudo isso eles são; mas corruptos, não. Já não mais veste, nem de brincadeira ou para ir caminhar na orla, as camisetas do PT que o enchiam de orgulho; manda e-mails para os amigos escrachando o governo petista; reconhece que seu voto poderia ter sido melhor usado [mesmo que o tivesse anulado]; maldiz sua inocência. Mas, no fundo do coração, não os vê corruptos, as CPI's estão exagerando um pouco, isso é coisa do ACM, agora com o auxílio (?) de seu neto e a colaboração do César Maia e de Rodrigo, seu filho. Tudo, menos corruptos como dizem que eles são.
Até que aparece Francenildo - mais tarde [uma, duas semanas, não custou muito] conhecido como O Vasculhado - na vida do PT, representado pelo poderoso, competente e educado médico sanitarista doutor Antonio Palocci, sua força mais representativa nos últimos tempos. Até a oposição, amiga leitora, você bem sabe, o respeitava, o defendia, fingindo não ver ou não vendo, mesmo, o mentiroso que o sanitarista Palocci, travestido de ministro da Fazenda, escondia por trás do sorriso discreto, da lhaneza no trato e da fala mansa.
Vimos todos o que aconteceu. Não é preciso entrar em detalhes: as manchetes de todos os jornais de hoje analisam-nos à exaustão. Até a múmia do faraó, envergonhada, comentou o caso com Cleópatra, nas profundas do não sei onde.
Paulo me ligou às quatro da manhã em prantos: "Eles são corruptos, sim; eles são corruptos". E despencou todo o repertório de palavrões que aprendeu no colégio de padres onde estudou até o clássico.

Ouvi um mendigo do Leblon [os mendigos do Leblon têm personalidade própria; alguns - encontrei um certa feita - com curso superior] comentando com o jornaleiro: "É isso aí, Carlinhos, o povo brasileiro sofre. Mas nós vamos ganhar o hexa e fica tudo bem. É possível rapaz, acredite, que o homem seja até reeleito..."