quinta-feira, abril 13, 2006

ALI-BABÁ E OS QUARENTA LADRÕES POR VÔ MICHEL

Deixou filhos e histórias muitas o levantino Michel, mascate conhecido no antigo Estado do Rio, responsável pelo povoamento de boa parte dos Campos dos Goytacazes, Macahé [de outrora] e municípios vizinhos outros. De sua vida conheço o que me contam seus netos e netas, uma das quais casada com este humilde blogueiro há quase cinquenta anos. Sei da capa preta que não tirava, chovesse ou fizesse sol; do um mil réis que distribuía entre as netas mais novas para atender suas chantagens emocionais e financeiras e que, de posse do dinheirame, corriam ao depósito mais próximo para comprar as guloseimas depois distribuídas pela criançada da vizinhança. Sei até dizer uns poucos palavrões em árabe com que acarinhava àqueles sobre os quais recaía seu humor pouco afeito á língua, hábitos e maneiras do brasileiro.
Tratam-no os netos, até hoje - passados mais de cinquenta anos da derradeira viagem do mascate -, como "Vô Michel". Foi com ele que aprenderam, entre outras tantas, contadas naquela língua atrapalhada que somente os filhos mais velhos entendiam por completo, a história de "Ali-Babá e os Quarenta Ladrões". Verdade também que a culta leitora conhece a história [quem não dela tomou conhecimento?]: mas contada pelo Vô Michel acredito que somente uns poucos privilegiados.
Perdoem-me os cinco ou seis assinantes que me aturam por contá-la de forma tão sintética; faltam-me tempo, talento e o estar junto, tão imprescindível para se dar vida às narrativas feitas para crianças e adultos:

"Faz tempo, lá pelas bandas do Oriente, vivia Ali-Babá, mascate como Vô Michel, que ganhava a vida comprando e vendendo coisas nas aldeias próximas àquela em que nasceu e passou toda sua vida. Voltando a casa numa tarde ensolarada de verão, Ali-Babá defrontou-se com uma caravana de quarenta homens que levavam grandes caixas; surpreendeu-o o fato de os homens juntarem todas as caixas diante de uma rocha enorme e intransponível; mais surpreso ficou quando deu conta que o chefe dos caravaneiros voltou-se para a grande pedra e disse: 'Abre-te, Sésamo!'. Abriu-se na rocha, milagrosamente, uma fenda que dava entrada a uma gruta onde os homens colocaram as caixas. Após algum tempo todos deixaram o local e o chefe falou: 'Fecha-te, Sésamo!'. E a caverna se fechou.
Ali-Babá deixou passar até que os homens desaparecessem de seus olhos e dirigiu-se à gruta. Parou - trêmulo e um pouco descrente - à sua frente e falou: 'Abre-te, Sésamo!'. Abriu-se a caverna para seu espanto. Viu, então, nosso herói, que lá dentro se encontrava escondido valioso tesouro, fruto, sem qualquer dúvida, de roubos que aqueles homens estariam fazendo nas aldeias das redondezas. Carregou o que pode em um saco e regressou à casa.
Kasim, irmão mais velho de Ali, só tomou conhecimento da história fantástica no dia seguinte. Levado pela ambição, ao cair da noite, sem nada dizer a quem quer que fosse, nem mesmo ao irmão, juntou alguns sacos e foi para a gruta [no local que lhe fora indicado por Ali]; retirado todo o ouro que pode preparou-se para tomar o caminho de volta a casa quando os ladrões chegaram para depositar novos frutos de suas atividades criminosas na gruta e o encontraram. Condenado pelos bandidos a ficar preso na caverna Kasim somente no dia seguinte foi encontrado por Ali, com os pés e mãos atados, impossibilitado de se mexer.
Para espanto dos ladrões, quando voltaram, o prisioneiro que lá deixaram não foi encontrado. "Vou fingir que sou mercador e bater de porta em porta nas aldeias próximas onde, certamente, encontrarei aquele que nos tentou roubar e quem o salvou. Colocarei cada um de vós em um pote e encherei um outro de azeite. Vamos encontrá-lo de qualquer maneira", disse o chefe dos bandidos; e partiram para cumprir a tarefa determinada. Depois de muito procurar chegaram, noitinha já, à casa de Kasim e o cabeça do grupo o reconheceu. Pediu-lhe asilo por aquela noite e preparou-se para resgatá-lo.
Frahazada, a empregada da casa, muito se assustou ao ouvir o bandido dirigir-se a um dos potes e falar: "Fiquem atentos! Está chegando a hora de pegarmos a quem queria nos roubar!". Apressou-se em contar o que ouvira a Ali que, na certeza de quem se tratava, decidiu logo ferver um alguidar de azeite e despejar seu conteúdo, aos poucos, em cada um dos potes que estavam com o biltre. Fugiram apavorados os ladrões, à exceção de seu chefe, logo preso e entregue à guarda do rei.
Envergonhado e agradecido, o ambicioso irmão de Ali-Babá ofereceu-lhe metade de tudo que conseguira sacar dos bandidos. "Agradeço-te, mas somente aceito a quarta parte de tua fortuna; que fique o restante para Frahazada, aquela a quem amo e com quem me vou casar."
Kasim ouviu em silêncio as palavras do irmão e nunca mais se deixou levar pela ambição."

Veio-me à lembrança a história contada por Vô Michel a seus netos, da leitura dos jornais de quarta-feira, 12 [ver nossa postagem de ontem: PRIMEIRA PÁGINA]. Nenhum deles deixou de registrar a história dos aéticos e contemporâneos quarenta ladrões, definidos e enquadrados pela Justiça com "J" maiúsculo.
Se serão punidos não sei [nem - que me perdoem os responsáveis - acredito]. Mas que se creia: ainda existem Ali-Babás e Frahazadas nesta "terra brasilis". Resta descobrir se o chefe da quadrilha será enquadrado nos conformes da lei.