Primeiro foi na linguagem dos locutores de futebol: Fulano do time tal carregava mala digna de respeito; como poderia ter fôlego para enfrentar noventa minutos de jogo corrido? Ou Sicrano, que era o craque de time famoso lá da Bahia e levou meses para perder a mala que carregava e não conseguiu; não participou da Copa do Brasil, perdeu o Campeonato Nacional e, tempo depois, voltou para sua terra com o desencanto de não haver brilhado na vitrine dos craques de futebol que era como chamavam o Rio de Janeiro até pouco tempo atrás. Caiu o Fluminense para a Segundona, depois o Botafogo; Vasco e Flamengo só fazem é brigar e mudar de técnicos para não seguir o caminho dos outros dois grandes; a vitrine partiu-se, dizem alguns comentaristas de São Paulo - para desespero de seus colegas cariocas - nos programas transmitidos pelos canais especializados no [ainda nobre?] esporte bretão.
Confesso que custei a descobrir a que se referiam os speakers, assim eram chamados em meu tempo, quando tratavam das malas de alguns craques da pelota. Com o auxílio, porém, de meus netos adolescentes, botafoguenses por paternidade, que riram de mim pela ingenuidade do velho, descobrí: mala, em futebolês, nada mais é que o traseiro, a região glútea, as nádegas, a bunda, enfim, dos jogadores. Faz sentido: observe o atleta leitor como fica difícil a alguns laterais, ou alas, como chamam agora [não entendo mais nada; em meu tempo eram aqueles, suponho, que denominávamos backs], cumprir suas tarefas de ir e vir pelo campo de jogo em desabaladas carreiras ligados a traseiros dignos, e bem vistos até, de algumas grandes estrelas do teatro rebolado de anos atrás; faz sentido.
Depois percebi qua alguns companheiros de boteco davam o tratamento de mala a certos paus-d'água chatos, daqueles que adoram abraçar e deixar no pescoço do interlocutor o bafo desagradável das muitas bebidas experimentadas no meio do caminho até chegar à mesa. Malas também eram alguns freqüentadores bissextos, ou não, que, a cada vez que se reuniam ao grupo, contavam as mesmas histórias tristes de sofrimento, normalmente ligadas aos chifres que tomaram de suas almas gêmeas ou a doenças crônicas que estavam fadados a carregar pela vida afora. Eram os malas dos botecos, alguns até, pela chateação que passavam, brindados com o complemento "sem alça".
Parece que o mundo passou a ser dividido em dois grupos: os malas e os não malas, o primeiro com as variantes "com ou sem alça"; os segundos fracionados em inúmeros sub-grupos, de forma que ninguém ficou livre de classificação, dependendo da imaginação do amigo, inimigo ou circunstante que alcunhasse o coitado. Coisas de brasileiro...
Impedido, por doença - mala diabético que sou -, de comparecer com a freqüência de sempre à mesa reservada no velho boteco em frente à minha casa, surpreendí-me com variante de mala no campo político-existencial, expressa na frase que se segue: Beltrano carrega um armário de madame sem tamanho.
Levei tempo até entender; e confesso que só tive a concepção completa da frase com o auxílio de velho professor amigo e freqüentador da mesa, tradição em diversos campos da cultura nesta terra, que, didaticamente como é seu modo, não precisou chegar ao fim da explicação.
Facilito o sentido da oração para a politicamente correta leitora: sabe da história que corre de que lá em São Paulo certa senhora, esposa de político importante naquele estado, foi objeto de um mimo de 40, ou 400, vestidos? Pois é, andam dizendo que seu marido, tendo ou não culpa no cartório, sabendo ou não sabendo da origem do mimo, está fadado, pelo resto da vida, a carregar o armário da madame. Política é assim mesmo...
Dúvidas, se houver, mander mensagem para nosso e-mail.
Confesso que custei a descobrir a que se referiam os speakers, assim eram chamados em meu tempo, quando tratavam das malas de alguns craques da pelota. Com o auxílio, porém, de meus netos adolescentes, botafoguenses por paternidade, que riram de mim pela ingenuidade do velho, descobrí: mala, em futebolês, nada mais é que o traseiro, a região glútea, as nádegas, a bunda, enfim, dos jogadores. Faz sentido: observe o atleta leitor como fica difícil a alguns laterais, ou alas, como chamam agora [não entendo mais nada; em meu tempo eram aqueles, suponho, que denominávamos backs], cumprir suas tarefas de ir e vir pelo campo de jogo em desabaladas carreiras ligados a traseiros dignos, e bem vistos até, de algumas grandes estrelas do teatro rebolado de anos atrás; faz sentido.
Depois percebi qua alguns companheiros de boteco davam o tratamento de mala a certos paus-d'água chatos, daqueles que adoram abraçar e deixar no pescoço do interlocutor o bafo desagradável das muitas bebidas experimentadas no meio do caminho até chegar à mesa. Malas também eram alguns freqüentadores bissextos, ou não, que, a cada vez que se reuniam ao grupo, contavam as mesmas histórias tristes de sofrimento, normalmente ligadas aos chifres que tomaram de suas almas gêmeas ou a doenças crônicas que estavam fadados a carregar pela vida afora. Eram os malas dos botecos, alguns até, pela chateação que passavam, brindados com o complemento "sem alça".
Parece que o mundo passou a ser dividido em dois grupos: os malas e os não malas, o primeiro com as variantes "com ou sem alça"; os segundos fracionados em inúmeros sub-grupos, de forma que ninguém ficou livre de classificação, dependendo da imaginação do amigo, inimigo ou circunstante que alcunhasse o coitado. Coisas de brasileiro...
Impedido, por doença - mala diabético que sou -, de comparecer com a freqüência de sempre à mesa reservada no velho boteco em frente à minha casa, surpreendí-me com variante de mala no campo político-existencial, expressa na frase que se segue: Beltrano carrega um armário de madame sem tamanho.
Levei tempo até entender; e confesso que só tive a concepção completa da frase com o auxílio de velho professor amigo e freqüentador da mesa, tradição em diversos campos da cultura nesta terra, que, didaticamente como é seu modo, não precisou chegar ao fim da explicação.
Facilito o sentido da oração para a politicamente correta leitora: sabe da história que corre de que lá em São Paulo certa senhora, esposa de político importante naquele estado, foi objeto de um mimo de 40, ou 400, vestidos? Pois é, andam dizendo que seu marido, tendo ou não culpa no cartório, sabendo ou não sabendo da origem do mimo, está fadado, pelo resto da vida, a carregar o armário da madame. Política é assim mesmo...
Dúvidas, se houver, mander mensagem para nosso e-mail.

