Faz tempo trabalhei em escritório de consultoria sediado no Rio de Janeiro. Com freqüência era obrigado a viajar para São Paulo e Brasília onde permanecia, às vezes, por semanas inteiras. Adotava meu chefe, como regra normal de trabalho, que comprovássemos as despesas com notas fiscais correspondentes aos dispêndios que éramos obrigados a fazer. Simples: almoçássemos e pedíamos ao garçom a nota; despesas de hotel, transporte local - difícil era quando se usava táxi - eram comprovadas da mesma forma, como tudo que se relacionasse com os trabalhos que cumpria [lembro da oferta de flores que fiz à esposa de meu acompanhante em Curitiba, responsável pelos serviços no local, e que foi paga - sem problemas - dentro dos mesmos critérios]. Fácil, sem complicações e sem dúvidas. Ao voltar da tarefa apresentava a documentação relativa aos gastos no setor financeiro e recebia o que excedesse o adiantamento do que, porventura, houvesse tomado por antecipação.
Lembro quando descobri que outros caminhos eram adotados para solucionar problema tão simples: foi em Brasília, ao terminar de almoçar em restaurante não necessariamente o mais elegante do local; pedi a nota ao garçom que me perguntou qual o valor que deveria registrar; entendi, no ato, que se me aprouvesse ter o valor da despesa assinalado em dobro, "no troubles". Não aceitei, obviamente, e comentei, indignado, o que acontecera, com alguns funcionários públicos da repartição onde prestava meus serviços de consultor - alguns no exercício de funções de alta responsabilidade até - que riram de mim como se fosse eu um caipira no reino da malandragem. Não houve necessidade de maiores explicações: o pobre do rapaz do restaurante que me fez a proposta nada fazia além de cumprir um ritual da terra: entregar notas fiscais aos locais com valores acima do por eles realmente despendido. Era a regra conhecida, aceita e exercitada por todos.
São passados muitos anos e vejo, agora, que os procedimentos matraqueados só se aprimoraram, ilustre leitora: é dar uma espiadinha nas manchetes dos jornais dos últimos dias e o que vemos?
Poupo-me de citar as chamadas dos matutinos, vespertinos e revistas semanais, mas ouso sintetizar a ladreira que se esconde atrás das frias palavras gravadas no papel.
Criou-se na malfalada Câmara dos Deputados, nos idos de 2001, à guisa de reforço para os senhores deputados cobrirem despesas decorrentes do exercício normal de suas funções, a chamada "verba indenizatória" que, entre outros, serviria para o pagamento de gastos com aluguel, alimentação, material de escritório, hospedagem e combustível a ser comprovada como se fazia, tantos anos passados, no escritório em que trabalhei: mediante a apresentação de comprovantes. Criou-se, até, - salve a burocracia e o emprego da vizinha do "affaire" de algumas autoridades da República - um núcleo de fiscalização para auditar a documentação comprobatória das despesas. Para quê ninguém sabe: alegam que faltam recursos técnicos patati-patatá e patati-patatá até dar no deu: mais de cinquenta deputados acusados de usar gasolina suficiente para viajar, em um mès, cada um deles, o correspondente a várias vezes a distância [por terra] entre Belém e Porto Alegre. Se eu estiver enganado - e quero - que me corrijam. Nomes não vou citar: que a meia dúzia de assinantes que me honra com sua leitura deve saber melhor que eu. Ressalto é minha tristeza com essa Câmara, desonrada como as mulheres de vida fácil de antigamente; as de hoje comportam-se com maior dignidade [como se pode ver - alguém tem dúvida? - em algumas mansões da capital].
Ciente dos desvios na utilização da "verba indenizatória" o digníssimo presidente daquela casa, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), determinou ao Corregedor da Câmara, deputado Ciro Nogeira (PP-PI ), que investigasse as denúncias que circulam - com os automóveis, tratores, caminhões etc dos senhores deputados- pelo país afora.
Esqueceu-se, talvez, Rebelo, que o designado é um dos maiores beneficiários do uso dos recursos da "verba indenizatória", não sei se, necessariamente, na comprovação do combustível utilizado em seus veículos de locomoção: de 9 a 12 mil reais, porém, por mès, em média, do ilustre deputado, são os dispêndios de S.Excia [ao menos nas notas fiscais que apresenta], o Sr.Corregedor.
Vivos estivessem Lima Barreto e Machado de Assis, os mulatos de ouro da literatura brasileira, e iam essas autoridades de araque ver o que é bom pra tosse.
Lembro quando descobri que outros caminhos eram adotados para solucionar problema tão simples: foi em Brasília, ao terminar de almoçar em restaurante não necessariamente o mais elegante do local; pedi a nota ao garçom que me perguntou qual o valor que deveria registrar; entendi, no ato, que se me aprouvesse ter o valor da despesa assinalado em dobro, "no troubles". Não aceitei, obviamente, e comentei, indignado, o que acontecera, com alguns funcionários públicos da repartição onde prestava meus serviços de consultor - alguns no exercício de funções de alta responsabilidade até - que riram de mim como se fosse eu um caipira no reino da malandragem. Não houve necessidade de maiores explicações: o pobre do rapaz do restaurante que me fez a proposta nada fazia além de cumprir um ritual da terra: entregar notas fiscais aos locais com valores acima do por eles realmente despendido. Era a regra conhecida, aceita e exercitada por todos.
São passados muitos anos e vejo, agora, que os procedimentos matraqueados só se aprimoraram, ilustre leitora: é dar uma espiadinha nas manchetes dos jornais dos últimos dias e o que vemos?
Poupo-me de citar as chamadas dos matutinos, vespertinos e revistas semanais, mas ouso sintetizar a ladreira que se esconde atrás das frias palavras gravadas no papel.
Criou-se na malfalada Câmara dos Deputados, nos idos de 2001, à guisa de reforço para os senhores deputados cobrirem despesas decorrentes do exercício normal de suas funções, a chamada "verba indenizatória" que, entre outros, serviria para o pagamento de gastos com aluguel, alimentação, material de escritório, hospedagem e combustível a ser comprovada como se fazia, tantos anos passados, no escritório em que trabalhei: mediante a apresentação de comprovantes. Criou-se, até, - salve a burocracia e o emprego da vizinha do "affaire" de algumas autoridades da República - um núcleo de fiscalização para auditar a documentação comprobatória das despesas. Para quê ninguém sabe: alegam que faltam recursos técnicos patati-patatá e patati-patatá até dar no deu: mais de cinquenta deputados acusados de usar gasolina suficiente para viajar, em um mès, cada um deles, o correspondente a várias vezes a distância [por terra] entre Belém e Porto Alegre. Se eu estiver enganado - e quero - que me corrijam. Nomes não vou citar: que a meia dúzia de assinantes que me honra com sua leitura deve saber melhor que eu. Ressalto é minha tristeza com essa Câmara, desonrada como as mulheres de vida fácil de antigamente; as de hoje comportam-se com maior dignidade [como se pode ver - alguém tem dúvida? - em algumas mansões da capital].
Ciente dos desvios na utilização da "verba indenizatória" o digníssimo presidente daquela casa, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), determinou ao Corregedor da Câmara, deputado Ciro Nogeira (PP-PI ), que investigasse as denúncias que circulam - com os automóveis, tratores, caminhões etc dos senhores deputados- pelo país afora.
Esqueceu-se, talvez, Rebelo, que o designado é um dos maiores beneficiários do uso dos recursos da "verba indenizatória", não sei se, necessariamente, na comprovação do combustível utilizado em seus veículos de locomoção: de 9 a 12 mil reais, porém, por mès, em média, do ilustre deputado, são os dispêndios de S.Excia [ao menos nas notas fiscais que apresenta], o Sr.Corregedor.
Vivos estivessem Lima Barreto e Machado de Assis, os mulatos de ouro da literatura brasileira, e iam essas autoridades de araque ver o que é bom pra tosse.

