Travessia de Cherbourg para Lisboa.
Alto-mar, Paris-Lisboa, 2 de novembro de 1959
Hoje é dia santo e não se deve falar de coisas feias.
Não se deve falar de prostitutas nem de cabarets.
Hoje é dia santo.
Mas eu me lembro, ainda, de Paris
E é de Paris que vou falar... num dia santo.
Les Grands Boulevards onde passei, Avenue de L'Opera.
Lido, Le Carroussel [que lindos são os meninos(?) do 3º sexo], Sex-Appeal e La Roullette.
Toulouse-Lautrec - admirei seus quadros no Moulin Rouge.
Champagne, Louvre [Mona Lisa, Vênus de Milo e Corregio],
Tulhérias, Tour Eiffel, Napoléon.
Eu vi os sinos da Notre-Dame e o Arco do Triunfo.
Invalides eu vi.
Eu vi La Concorde.
Eu dormi em Montmartre
que você já ouviu falar.
Eu fui a Montparnasse e vi existencialistas no Boulevard Poissonière.
Eu andei na Avenue des Italiens
e tirei fotografias.
Amei muito, e amei Paris.
E amei Sonia [6.000 francos] que é polonesa.
E amei Lisabeth que é francesa, e que é modelo, a 10.000 francos.
Eu sei, sou uma besta.
Mas é caro o amor em Paris e hoje é dia santo.
Virei caixa de fósforos, amigo meu.
Senti o perfume de mulheres lindas.
Adorei, irmão, adorei.
Hoje é dia santo e não se deve falar de coisas feias.
Abraços e beijos do que está distante.
Sinceramente, amigo, eu queria estar junto a você... aqui.
Para abraçá-lo no dia de seu aniversário.
Do sempre [e intermitente]
Deu-se meu amigo ao gentil trabalho de guardar, até hoje, carta-poema da época em que dávamos os primeiros passos na idade adulta. Nem eu tinha dela mais lembrança.
Transcrevo-a com a sincera emoção dos vinte anos, quando a escrevi.
Eram assim os jovens amigos de antigamente.

