Setenta anos, diabético, aposentado pelo INSS por doença, Zé Baptista, meu companheiro de colégio desde 1950, só tinha para seu orgulho o "p" do Baptista no nome, trazido do avô, funcionário durante uma vida inteira e mais quarenta anos da antiga E.F.C.B. [Estrada de Ferro Central do Brasil; para quem não sabe, a hoje Rede Ferroviária Federal].
Teve sempre orgulho de ver o avô metido naquele uniforme azul-marinho, na cabeça o quepe verde de aba preta curta, sapatos de verniz, ar bem inglês, a segurar a bandeira amarela durante todo o tempo em que se encontrava de serviço.
Teve sempre orgulho de ver o avô metido naquele uniforme azul-marinho, na cabeça o quepe verde de aba preta curta, sapatos de verniz, ar bem inglês, a segurar a bandeira amarela durante todo o tempo em que se encontrava de serviço.
Cresceu compartilhando da convicção dos demais parentes de que o avô era um homem rico pelo singelo motivo que, para ele, tinha relevância incomum: as comemorações de Natal da família eram sempre feitas na casa de seu Dulcídio Baptista, esse o nome do avô ferroviário, com direito a peru, vinho português e um bacalhau ao forno que nunca mais comeu outro igual em lugar qualquer.
Tornava-se, depois da aposentadoria - era, ao menos, o que sentia e dizia aos amigos mais próximos - cada vez mais triste a vida de Zé; tinha dificuldade para entender o comportamento de filhos e netos: deixou de receber deles, o que acontecia antes de afastar-se do trabalho, a atenção que dera aos pais, avós e a parentada mais velha, como chamava os ancestrais, todos mortos [à exceção do velho Dulcídio] com pouco mais de cinquenta anos, o que a todos preocupava na medida em que iam avançando nos quarenta.
Tornava-se, depois da aposentadoria - era, ao menos, o que sentia e dizia aos amigos mais próximos - cada vez mais triste a vida de Zé; tinha dificuldade para entender o comportamento de filhos e netos: deixou de receber deles, o que acontecia antes de afastar-se do trabalho, a atenção que dera aos pais, avós e a parentada mais velha, como chamava os ancestrais, todos mortos [à exceção do velho Dulcídio] com pouco mais de cinquenta anos, o que a todos preocupava na medida em que iam avançando nos quarenta.
Batistinha - sem o "p", que achava tão ilustre no sobrenome -, como era chamado pelos amigos, sentia não estar acompanhando o bonde do tempo. Quantas e quantas vezes descobriu-se correndo atrás dele: não sabia mexer em computador; deixou de ir ao cinema [seus artistas preferidos eram Gary Cooper, Grande Otelo e Oscarito, Olivia de Havilland, Burt Lancaster e as duas Anas italianas, a Magnani e a Pierangeli - também Maria - antes de se transformar em Pier Angeli no cinema americano]; em música ninguém como Orlando Silva, Ivon Curi e Glenn Miller; não ia além do Inglês que aprendera no ginásio e científico embora tivesse facilidade enorme para o Latim e as línguas a que deu origem.
Via, enquanto isso, o filho mais velho viajar para a Europa fazer cursos de extensão que jamais imaginara existissem usando o dinheiro que guardara por uma vida toda para fazer aquela viagem pelo rio Amazonas com dona Celeste [promessa de casamento], sua mulher, morta do coração aos quarenta e poucos anos, assim, sem mais nem menos [caiu fulminada em frente ao açougue onde fora comprar uma carne para a cunhada que viera de Vitória da Conquista passar uns dias no Rio] nem sequer uma lágrima.
Belo dia tomou um ônibus e saltou no Méier. Não lhe saía da cabeça o orgulho que mantinha desde garoto, do "p" no nome. Seu neto mais velho, naquela manhã, fizera malcriação inimaginável para aquele velho [notara no espelho do banheiro, pela manhã, ao fazer a barba, como envelhecera nos últimos tempos] em que se transformara. Subiu, com alguma dificuldade, a escada que dá para o jardim do Méier e parou, no meio do caminho, bem acima da linha. Pensava no neto malcriado e que o benefício que recebia da Previdência não dava para fazer uma festa digna das que seu Dulcídio - morto pouco depois de 1964 - fazia. Ficou ali, vendo os trens passando, por dez, quinze minutos, vinte minutos.
Apenas uma senhora [casada, por acaso, com o Toquinho, seu colega de turma no ginásio, morto num acidente aéreo] o viu atirando-se à linha quando passava o trem direto para Santa Cruz. Botou a mão no rosto e deu um grito só comparável aos de Ana Magnani.
Todos os companheiros, ainda vivos, que compareceram ao enterro no São João Baptista, lembravam do orgulho que o falecido tinha do "p" do Baptista, que carregava no nome, vindo de seu avô.
Igualzinho ao "p" do santo...

