terça-feira, dezembro 19, 2006

NUNCA HOUVE FESTAS DE NATAL COMO AS DE SEU DULCÍDIO BAPTISTA

Setenta anos, diabético, aposentado pelo INSS por doença, Zé Baptista, meu companheiro de colégio desde 1950, só tinha para seu orgulho o "p" do Baptista no nome, trazido do avô, funcionário durante uma vida inteira e mais quarenta anos da antiga E.F.C.B. [Estrada de Ferro Central do Brasil; para quem não sabe, a hoje Rede Ferroviária Federal].

Teve sempre orgulho de ver o avô metido naquele uniforme azul-marinho, na cabeça o quepe verde de aba preta curta, sapatos de verniz, ar bem inglês, a segurar a bandeira amarela durante todo o tempo em que se encontrava de serviço.
Cresceu compartilhando da convicção dos demais parentes de que o avô era um homem rico pelo singelo motivo que, para ele, tinha relevância incomum: as comemorações de Natal da família eram sempre feitas na casa de seu Dulcídio Baptista, esse o nome do avô ferroviário, com direito a peru, vinho português e um bacalhau ao forno que nunca mais comeu outro igual em lugar qualquer.

Tornava-se, depois da aposentadoria - era, ao menos, o que sentia e dizia aos amigos mais próximos - cada vez mais triste a vida de Zé; tinha dificuldade para entender o comportamento de filhos e netos: deixou de receber deles, o que acontecia antes de afastar-se do trabalho, a atenção que dera aos pais, avós e a parentada mais velha, como chamava os ancestrais, todos mortos [à exceção do velho Dulcídio] com pouco mais de cinquenta anos, o que a todos preocupava na medida em que iam avançando nos quarenta.

Batistinha - sem o "p", que achava tão ilustre no sobrenome -, como era chamado pelos amigos, sentia não estar acompanhando o bonde do tempo. Quantas e quantas vezes descobriu-se correndo atrás dele: não sabia mexer em computador; deixou de ir ao cinema [seus artistas preferidos eram Gary Cooper, Grande Otelo e Oscarito, Olivia de Havilland, Burt Lancaster e as duas Anas italianas, a Magnani e a Pierangeli - também Maria - antes de se transformar em Pier Angeli no cinema americano]; em música ninguém como Orlando Silva, Ivon Curi e Glenn Miller; não ia além do Inglês que aprendera no ginásio e científico embora tivesse facilidade enorme para o Latim e as línguas a que deu origem.

Via, enquanto isso, o filho mais velho viajar para a Europa fazer cursos de extensão que jamais imaginara existissem usando o dinheiro que guardara por uma vida toda para fazer aquela viagem pelo rio Amazonas com dona Celeste [promessa de casamento], sua mulher, morta do coração aos quarenta e poucos anos, assim, sem mais nem menos [caiu fulminada em frente ao açougue onde fora comprar uma carne para a cunhada que viera de Vitória da Conquista passar uns dias no Rio] nem sequer uma lágrima.

Belo dia tomou um ônibus e saltou no Méier. Não lhe saía da cabeça o orgulho que mantinha desde garoto, do "p" no nome. Seu neto mais velho, naquela manhã, fizera malcriação inimaginável para aquele velho [notara no espelho do banheiro, pela manhã, ao fazer a barba, como envelhecera nos últimos tempos] em que se transformara. Subiu, com alguma dificuldade, a escada que dá para o jardim do Méier e parou, no meio do caminho, bem acima da linha. Pensava no neto malcriado e que o benefício que recebia da Previdência não dava para fazer uma festa digna das que seu Dulcídio - morto pouco depois de 1964 - fazia. Ficou ali, vendo os trens passando, por dez, quinze minutos, vinte minutos.

Apenas uma senhora [casada, por acaso, com o Toquinho, seu colega de turma no ginásio, morto num acidente aéreo] o viu atirando-se à linha quando passava o trem direto para Santa Cruz. Botou a mão no rosto e deu um grito só comparável aos de Ana Magnani.

Todos os companheiros, ainda vivos, que compareceram ao enterro no São João Baptista, lembravam do orgulho que o falecido tinha do "p" do Baptista, que carregava no nome, vindo de seu avô.

Igualzinho ao "p" do santo...