Ninguém tinha notícias, nem mesmo o Juracy, organizador do evento desde mil novecentos e cinquenta e sete, impecável nos detalhes e informações sobre cada companheiro.
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Impôs-se a tarefa desde o dia em que, esbarrando com Neuzinha, noiva do Barbosa, na Av.Rio Branco, esquina de Almirante Barroso - exatamente no dia do almoço comemorativo do primeiro aniversário de formatura da Tumassis [nome carinhoso dado ao patrono da turma, Machado de Assis] - quase arrastou-a para comparecer com ele às festividades. Insistia:
"O pilantra do Barbosa não pode faltar, Neuzinha. Vai ser hoje, naquele restaurante azul quase em frente ao colégio, não tem o que errar. Quantos vezes nós fomos pra lá, você conosco, tomar chope depois das aulas? Ligamos pra ele assim que chegarmos lá."
Olhos cheios de lágrimas, mas firme, Neuzinha estendeu-lhe o jornal que carregava, abriu-o na página do necrológio e passou-o às mãos do velho companheiro do noivo.
Juracy estremeceu: era o anúncio da missa de Barbosa a ser realizada dois dias depois. E ninguém para lhe dizer nada, um telefonema que fosse.
Praticamente nenhum companheiro faltou à missa de Sétimo Dia de Barbosa. Juracy empenhou-se ao máximo na divulgação do fato: telefonou, mandou recados, foi à casa daqueles com quem não pode, simplesmente, avisar por telefone; fez o pssível e o impossível.
Foram dele as últimas palavras, à beira do caixão, dirigidas pelos colegas de turma ao Barbosa.
Jurou - ainda no cemitério - que, daquela dia em diante, nenhum companheiro ficaria sem saber, nunca, como estavam seus amigos de colégio.
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Pois bem, nem o Juracy tinha notícias de Borbô. Depois da promessa feita no dia da despedida de Barbosa por apenas por duas ou três vezes soube de Borbô. Andava mal. Mas não dava oportunidade de qualquer contato mais profundo.
Passados uns cinco anos do último dia da despedida no colégio, nem mesmo sua sombra foi vista. Desapareceu.
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Foi chocante a notícia no jornal da noite da TV-Globo. Com ar escandalizado a locutora informava da prisão de dois homens e uma mulher que, fazendo as vezes de auxiliares das equipes de bombeiros que prestavam auxílio aos desabrigados pelas enchentes em munícipio do noroeste do Estado do Rio, foram surpreendidos e presos levando para a garagem da casa de um deles, dezenas de caixas com alimentos e roupas destinados aos necessitados.
Procuravam esconder seus rostos ora com as mãos, ora com as camisetas vermelhas que haviam recebido dos bombeiros. Em vão; os cinegrafistas, acostumados com cenas daquela natureza, não tinham dificuldade em registrar seus rostos, envergonhados, para tristeza dos telespectadoes.
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Não sei explicar minha capacidade de guardar na memória a fisionomia das pessoas com quem tive a oportunidade [ou desprazer] de conviver. E aquele rosto na televisão, intimidado, quase aos prantos, era o rosto de Borbô.
Dedo em riste, o delegado apontava para cada um dos três crimonosos; cobrava-lhes a confirmação dos nomes e o que faziam na vida.
Chegou a vez de Borbô:
"Técio Ottoni Pimentel da Silva!". Não havia mais dúvidas; extinta qualquer dúvida que eu ainda pudesse ter. Era ele. Quantas vezes, durante quantos anos, ouvi seu nome sendo chamado pelos professores ou inspetores? Era sim, era ele, o Borbô, um senhor de cabelos e barbas brancas que, solicitado a dizer a profissão, balbuciou alguma coisa no ouvido do delegado e
mostrou-lhe uma carteira protegida com plástico transparente. A autoridade, sorrindo, dirigiu-se às câmeras de televisão, e repetiu, possivelmente, as palavras do detido: "Auxiliar de finanças."
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O jornal da cidade, na manhã seguinte, esclarecia um pouco melhor a situação funcional do velho e sumido companheiro de colégio.
"O chefe do grupo responsável pelo saque aos mantimentos doados aos flagelados do município atende pelo nome de Técio Ottoni Pimentel da Silva e foi educado em família de classe média alta, tendo estudado em colégio particular de primeira linha no Rio de Janeiro. Consta que foi vítima de acidente automobilístico pouco tempo após ingressar na Faculdade de Medicina, àquela época na Praia Vermelha, o que o levou a ter lapsos de memória cada vez maiores, afastando-o de seus colegas e amigos [...] Trabalha, de uns anos para cá, como auxiliar do agiota Guilhermino, que tem seu escritório em nossa cidade... ", e por aí afora.
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Juracy foi visitá-lo na cadeia da cidade do interior no dia seguinte ao de sua prisão. Borbô, sem graça. abriu todo o jogo.
"Não comenta com ninguém, não, Juracy. A situação ficou braba, eu me separei de minha mulher, não tive mais dinheiro para me tratar e acabei me transformando em auxiliar do seu Guilhermino, o agiota aqui da cidade. Hoje em dia sou seu preposto dele."
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Juracy não fez questão de guardar os dados do companheiro Borbô para os próximos encontros da Tumassis. Já imaginou colocar na relação um preposto de agiota?

