quinta-feira, janeiro 15, 2009

AMIGOS DO PEITO TAMBÉM RESOLVEM PROBLEMAS DE SAÚDE MESMO QUE NÃO SEJAM MÉDICOS

Modestas e discretíssimas incursões por meus vinhos e pratos preferidos viram-me entrar neste Ano Santo de 2009. Com elas a depressão disfarçada de falta de dinheiro e a tristeza travestida dos males que acompanham os velhos maiores de setenta com histórico de enfartes, AVC e neuropatia diabética.

Confesso que, logo na primeira semana do ano, me entreguei às inimigas - depressão e tristeza - certo que uns poucos dias mais tarde estaria de novo em forma, se é que se pode esperar estar em forma neste momento de crise que assola os lares, botequins e estádios de futebol.
Não deu. Dia após dia sentia a angústia do primeiro enfarto aumentando, os ouvidos zunindo, a tontura acompanhando qualquer movimento mais brusco do corpo. Como bom covarde que sou recorri ao médico que, com aquele bom e constante sorriso nos lábios, sugeriu a supressão de um dos rémédios que uso diariamente para controle da pressão e o início do consumo de outro - daqueles que, pelo preço, fazem o paciente ficar logo bom -, não esquecendo de lhe dar conhecimento de qualquer incômodo que viesse a surgir passados os três ou quatro primeiros dias do novo tratamento.

Foi quando recebi a mensagem de um daqueles amigos do peito:

"NÃO DEIXEM DE LER A CRÔNICA / ARTIGO / EDITORIAL .....
DO FABULOSO ROBERTO Da MATTA COM O TITULO  'O PRESIDENTE NÃO LÊ'.
IMPERDÍVEL.
P.S. "O GLOBO 14/01/09 PAG. 7"

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Supro a preguiça de meu amigo e transcrevo a matéria de Da Matta que, sugere ele [meu amigo] aos amigos do peito [e a mais alguns, proponho, não tão do peito], tomem conhecimento:

"Quarta-feira, Janeiro 14, 2009

O PRESIDENTE NÃO LÊ - O GLOBO

Numa terra de cegos, quem tem um olho é rei. Num país de gente sedenta e carente de leitura, é desanimador e melancólico descobrir que o presidente da República, o sujeito mais importante e poderoso do sistema; a figura a quem devemos respeito e lealdade pelo cargo que ocupa; que representa não só um partido ou posição política e econômica, mas - como supremo magistrado da nação - todos nós; o homem numero 1 do país não lê. Mais: em entrevista ao jornalista Mário Sérgio Conti, para a revista "Piauí", ele declara que, quando tenta fazê-lo, tem azia. Ademais, descobrimos que ele fez como o pior presidente que os americanos jamais tiveram, George W. Bush, pois dele veio a cópia de uma estrutura palaciana montada para evitar a leitura. Para um sujeito como eu, que vive para os livros e de livros, e que morreria sem livros; para quem a leitura tem sido um meio de dar sentido à vida e de lidar com o amor, com a perda, com o sucesso, com a raiva, o trabalho e com a morte, saber dessa antipatia à leitura é - digo-o sinceramente e com o coração na mão - chocante, inacreditável, triste, devastador.

Para quem tem na leitura não só uma fonte de informação e sabedoria, mas os motivos para viver, como é o caso dos professores, escritores, educadores, ensaístas, legisladores, pensadores e jornalistas; funcionários e intérpretes das normas legais, cujo trabalho consiste em aplicar regulamentos, decidindo a todo instante o que é correto, descobrir que o presidente não lê é uma bofetada na cara!

Vejam bem, há contradições triviais. O padre pecador, o ateu crédulo, o professor ignorante, o médico hipocondríaco, o economista pobre, o pastor malandro, o jornalista venal, o desembargador corrupto, o policial criminoso e o político sem caráter. Mas todos leem! Todos se informam por meio de amigos e auxiliares, mas não abandonam o contato direto com a fonte: esse foco indispensável ao conhecimento do mundo. Esse mundo feito de representações codificadas, de palavras e algarismos articulados numa determinada intenção e estrutura. Estivesse eu dizendo o que digo por meio de rimas, o efeito seria diferente. É por causa disso que eu não posso me conformar com um presidente que não lê.

O que saiu na revista deve ser um engano. Estou seguro que o presidente lê. Lula estava simplesmente brincando com o entrevistador. Ressentido ou ofendido com alguns jornais e revistas, o presidente usou o manto da ironia e resolveu chocar o estabelecimento jornalístico, dizendo que não lê. Não posso acreditar que o servidor público mais importante do meu país, apreenda o mundo apenas por meio do ouvido. Sendo instruído e informado sobre os eventos e ideias deste nosso mundo conturbado somente por meio de conversas permeadas pelo ponto de vista e emoções dos seus interlocutores. Não posso crer que o presidente se contente em apenas ouvir o canto do galo, sem jamais vê-lo em pessoa. Que ele não tenha nenhum momento a sós consigo mesmo, no qual - com um texto na frente dos olhos - coloque para dentro de seu ser, por meio da leitura solitária e individualizadora, aquilo que o autor da narrativa explicita, revela, ensina, critica, pede, descobre, interpreta, anuncia, reitera, louva, interroga, suspeita, ou condena.

Quando o presidente diz que não lê, ele envia uma poderosa mensagem à sociedade que o elegeu. No fundo, ele diz que o discernimento pode ser alcançado por vias externas. Os laços sociais substituem a experiência da leitura que usualmente vai dos jornais e revistas para os livros. O que impressiona não é apenas o fato de o homem não ler. É o fato de ele estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios. Sem a visão direta, interiorizada, individualizada e subjetiva dos fatos e problemas porque eles podem ser assimilados através dos outros. E que ele não leva a sério a imprensa livre e contraditória que, como ele mesmo admite, foi decisiva na sua eleição.

A leitura vai muito além da informação. Ela mostra que os fatos são sempre inventados, relativos e determinados por perspectivas. Um mesmo "fato" pode produzir pontos de vista diversos, relativos a um mesmo dilema ou questão. Num mundo permeado por contradições, a leitura é um instrumento privilegiado para entendê-las e eventualmente superá-las.

Em estado de choque, penso na lição daquele Machado de Assis que - diga-se logo - não pode deixar de ser lido, quando ensinou que quem conta um conto aumenta (e necessariamente subtrai) um ponto. As versões pessoais, a apreensão marcante, sempre surgem da leitura em primeira mão. Como um sujeito que morreria sem os livros, como uma pessoa cuja profissão é ensinar a ler e que vive de leitores, eu sou obrigado a imaginar que essa entrevista é, no mínimo, um conto; e, no máximo, uma catastrófica notícia."

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Não se espante amigo [e amigos do amigo; nada a ver com os Amigos dos Amigos-ADA, grupo de senhores que se unem em diversas comunidades da cidade e que, com certeza, se opôem às medidas levadas a cabo pelo governo do Estado para transformar todas as nossas favelas em verdadeiros paraísos como a Polícia fez  com o morro de Santa Marta]. Não é a azia que impede S.Excia de ler, conforme certa fatia da mídia divulgou. Ele não lê porque não gosta e não quer. Já o disse este modesto blogueiro tempos atrás.
Veja, na postagem abaixo, a transcrição do que narramos em 29 de maio de 2006.

Não acreditou quem não quis.