"Não quero ver a senhora fora de casa. Só pode sair para ir ao supermercado fazer as compras. Pão já tem; e nada de ir à padaria daquele português sem-vergonha."
Terminou a breve recomendação com um puxar de cabelos e um empurrão que a fizeram cair, pranto contido, sobre a cama.
Foi naquele dia que Berenice tomou a decisão de ir à delegacia apresentar queixa contra Hermínio, o marido.
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Foi naquele dia que Berenice tomou a decisão de ir à delegacia apresentar queixa contra Hermínio, o marido.
Denise, a vizinha da casa em frente, não dera parte à polícia depois de uma surra que levou do companheiro - um sarará brabo com quem vivia por mais de dez anos? E os homens não foram à sua casa e deram um corretivo no malandro que ele nunca mais apareceu na área?
Pois é, decidiu Berenice, ia fazer o mesmo. Era só esperar aquela peste do Hermínio sair.
Pois é, decidiu Berenice, ia fazer o mesmo. Era só esperar aquela peste do Hermínio sair.
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Deu no jornal no dia seguinte:
"... A dona de casa Berenice dos Santos, 41, afirma que, ao procurar atendimento na delegacia de sua cidade (a cerca de 270 km da capital do Estado), um preso a atendeu na entrada da delegacia, por meio de uma pequena janela em um portão de ferro.
Segundo ela, o detento perguntou que ocorrência ela queria registrar. De início, afirma Berenice, ela se recusou a contar ao preso que estava ali para denunciar agressões praticadas pelo marido contra ela. Diante da insistência, ela contou.
Em seguida, o preso disse, segundo a entrevistada, que não havia nenhum policial no momento para registrar o caso e que ela deveria voltar no dia seguinte.
Segundo a dona de casa, ele ainda disse que 'um pedaço de papel não garante que o cara não vai te matar'. 'Se o cara tiver que matar, ele mata com papel e tudo' [...] O superintendente de Polícia do Interior do Estado confirma que um dos presos da delegacia conversou com a mulher, mas nega a versão de que só conseguiu prestar queixa contra o marido na manhã do dia seguinte. Segundo ele, havia policiais na unidade na segunda-feira, véspera da primeira tentativa de queixa [...] O superintendente disse que uma apuração preliminar concluiu que uma escrivã já estava atendendo a duas pessoas quando Berenice chegou, e o preso recomendou que ela esperasse o atendimento terminar [...] Um procedimento administrativo foi aberto para ouvir os envolvidos, inclusive o preso."
Segundo ela, o detento perguntou que ocorrência ela queria registrar. De início, afirma Berenice, ela se recusou a contar ao preso que estava ali para denunciar agressões praticadas pelo marido contra ela. Diante da insistência, ela contou.
Em seguida, o preso disse, segundo a entrevistada, que não havia nenhum policial no momento para registrar o caso e que ela deveria voltar no dia seguinte.
Segundo a dona de casa, ele ainda disse que 'um pedaço de papel não garante que o cara não vai te matar'. 'Se o cara tiver que matar, ele mata com papel e tudo' [...] O superintendente de Polícia do Interior do Estado confirma que um dos presos da delegacia conversou com a mulher, mas nega a versão de que só conseguiu prestar queixa contra o marido na manhã do dia seguinte. Segundo ele, havia policiais na unidade na segunda-feira, véspera da primeira tentativa de queixa [...] O superintendente disse que uma apuração preliminar concluiu que uma escrivã já estava atendendo a duas pessoas quando Berenice chegou, e o preso recomendou que ela esperasse o atendimento terminar [...] Um procedimento administrativo foi aberto para ouvir os envolvidos, inclusive o preso."
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Berenice mora hoje com o português da padaria que, com dois amigos da milícia local deram um arrocho em Hermínio e fizeram com que ele garantisse não se meter mais na vida, a partir daquele momento, da ex-mulher.
O marido espancador continuou morando na mesma casa. Amigou-se com uma mulata de quase um metro e oitenta de altura que implantou a linha dura no barraco.
Se fizer xixi fora do penico, apanha.
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Do procedimento administrativo aberto na delegacia nunca se teve notícia.

