terça-feira, fevereiro 03, 2009

OROCÓ FICA MUITO DISTANTE DA TAL DE CRISE FINANCEIRA?

A notícia publicada no jornal dizia, mais ou menos, assim:

"Alegando a descapitalização de suas empresas, provocada pelo fraco desempenho das exportações de frutas produzidas no Vale do São Francisco em 2008 - consequência da crise financeira no setor imobiliário nos Estados Unidos - os donos das fazendas  da região despediram de 15% a 20% de seus trabalhadores.

No Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Vale do São Francisco, desempregados formam filas todas as manhãs na calçada. Estão em busca de, principalmente, orientação jurídica.

Segundo o assessor jurídico da entidade, Suetônio Valenciano, 65, cerca de 50 reclamações trabalhistas - com até três pessoas em cada processo - são protocoladas todos os dias na Justiça local. A maioria dos demitidos reclama do não-pagamento dos direitos trabalhistas após a dispensa."

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É em um prédio todo branco na Praia da Boa Viagem, no Recife, que mora Severo Cavalcanti, engenheiro civil que pouco tempo passa na fazenda em Orocó, onde mantém seus negócios.

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Menandro Pereira da Silva, 35 anos, um dos setenta e poucos empregados da Fazenda Renascer [propriedade de doutor Severo], nunca teve a menor ideia do que pudesse vir a ser uma crise financeira no setor imobiliário dos Estados Unidos e, muito menos, de que maneira um negócio de nome tão complicado poderia afetar a vida de um lavrador pobre do sertão de Pernambuco. 

Ônibus praquela terra de gringos [era o lugar mais distante de que já tinha ouvido falar nas conversas com os amigos] não passava na frente da fazenda em que trabalhava nem na rodoviária enorme de Recife [tinha ônibus pra tudo quanto era lugar - viu nas duas vezes em que por lá passou - mas, com letreiro pros Estados Unidos, não lembrava ter visto, não]. 

Já de crise financeira do setor imobiliário nunca tinha ouvido falar nada; era coisa de doutor e em coisa de doutor peão não tinha nada que se meter, dizia sempre pra Zefinha, sua mulher, trinta e dois anos de idade, quinze de casada com ele, empregada também na fazenda do doutor.   

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Menandro, dia 29 do mês que passou, descobriu que aquelas coisas que não entendia estavam mais perto dele do que poderia imaginar: perdeu o emprego e ainda viu  Zefinha também ser despedida. Motivo alegado por Rubião, gerente de doutor Severo: descapitalização do setor. Mais outras palavras que - para ele e a mulher - nada significavam até aquele dia.

Marido e mulher, durante os cinco anos em que deram duro na fazenda Renascer, recebiam, cada um, o mesmo salário. Mínimo. 

Menandro e Zefinha, com dois meninos entrando na adolescência, ficaram, desde o final de janeiro último, sem saber como  se sustentar e aos filhos. Suspenderam as obras de construção de mais um cômodo na casa da família - de um só quarto -, e puseram o imóvel à venda por R$ 10 mil. Esperam, com esse dinheiro, construir outro lugar pra morar. Em vez de um novo cômodo, o marido acertou com a mulher erguer um comércio, do tamanho que der, para que ela possa continuar trabalhando e garantindo alguns trocados para a casa. Alertou os filhos: "Ela fica lá enquanto eu faço os bicos que for possível pelas fazendas das redondezas. Vocês ajudam sua mãe."

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É a esperança de Menandro. Só não se deu conta, ainda, de que a crise que o desempregou e fez vender sua casa, também afetou o trabalho temporário na região: o excesso de mão-de-obra baixou a diária de R$ 30 para R$ 20. Vai ter de trabalhar um bocado o marido de Zefinha para levar adiante o sonho da casa de material com dois cômodos e de estudo pras crianças. 

E tudo por conta de uma tal de crise financeira no setor imobiliário de um lugar que ele não sabe nem que ônibus tomar pra ir lá. Só sabe que é bem distante de Orocó.

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Zunindo na cabeça de Menandro: "Se as coisas não derem certo vou juntar as cuias e começar nova vida em São Paulo."