sexta-feira, agosto 07, 2009

AS CENAS DOS ÚLTIMOS DIAS NO SENADO PRENUNCIAM ESTAMPIDOS COMO OS DO FINAL DE 1963. QUEIRA DEUS QUE ISTO NÃO ACONTEÇA.

O tempo os transformou, de rivais políticos que eram, em inimigos pessoais. A ponto de o mais velho, senador, lídimo representante do coronelismo em seu estado - no correr dos anos 60, às vésperas de eleições para o Senado - prometer que mataria seu rival [então governador] dentro do plenário, caso se atrevesse a utilizar a palavra fazendo qualquer referência a ele.

Terminadas as eleições e contados e recontados os votos [era demorado àquela época o exercício da democracia] elegeu-se senador o desacatado ex-governador.

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Durante pouco tempo esperaram os companheiros da Casa um discurso do novo senador ; logo começou a circular a notícia de que S.Excia. preparava pronunciamento criticando o coronelismo em sua terra e, em especial, o velho senador que o ameaçara.

Foi marcada para a primeira terça-feira de dezembro de 63 a fala do novo senador.
Sabia-se que os dois rivais compareceriam armados à sessão, motivo suficiente para a preocupação dos companheiros e do presidente da Casa que anteviam cenas de "caatinga, no palco do mais despudorado cangaço".

Da tribuna, o senador ameaçado de morte começa seu discurso: "Senhor presidente, permita V.Exª que eu faça o meu discurso olhando na direção [do inimigo]... que ameaçou me matar hoje".
O velho senador levanta-se e caminha em direção à tribuna; voz alta para quem quiser ouvir, diz a um companheiro de partido que vai encher de balas a boca do desafeto.
Não permite que o orador [do qual dista menos de cinco metros] termine sua primeira frase; olhando em sua direção, chama-o de crápula.
Da tribuna, dispara dois tiros o ofendido. Nenhum deles atinge o alvo.

Na primeira fila de poltronas do plenário um senador leva as mãos ao peito e dá um grito sufocado de dor.

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Despedindo-se do Senado naquele dia - mulher, filhos, parentes e familiares presentes, apetrechado de modesta máquina fotográfica Kodak preparada para registrar seu último dia de trabalho - o humilde suplente aguardava o final da sessão, em poltrona na primeira fila, para despedir-se dos companheiros e voltar para seu longínquio estado.

Morreu ali mesmo sob o olhar dos que foram assistir seu último dia como senador da República. O filho mais velho nem teve tempo de fotografá-lo com vida.

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Voltaram à Casa, passado um ano - absolvidos -, os dois senadores. Assim foi decidido e assim foi feito.

A mulher do morto - obrigada a trabalhar durante o resto da vida como lavadeira para sustentar a família - não se pronunciou sobre a severidade da Justiça dos homens.
Nem sobre um possível auxílio que lhe poderia ter sido dado por qualquer dos personagens, ofensor e ofendido, desta real e triste história.

Eram eles, afinal, homens ricos e públicos. E poderiam tê-lo feito.
Apenas não o fizeram. Por não quererem.